quarta-feira, junho 23, 2004

A ética da co-responsabilidade

por Viviane Senna

O Brasil, o 15º PIB do mundo, cai para o 65º lugar em termos de desenvolvimento humano. No limiar do novo século,
temos de considerar dois “brasis” possíveis: o país que queremos, economicamente competitivo, socialmente justo, com um estado democrático de direito consolidado; ou o país que tememos, economicamente periférico, socialmente excludente, com instituições debilitadas pela guerra civil não declarada entre a Bélgica e Índia que aqui convivem.
Antes, pensávamos que construir um ou outro Brasil dependia só dos executivos federal, estaduais e municipais. Hoje, sabemos que não: a globalização vem despojando os governos nacionais de muitas funções. Por toda parte, cresce a importância do poder local. Uma nova divisão de responsabilidades também se delineia entre Estado e sociedade. As atribuições do poder público local e o papel das organizações não-governamentais tendem a crescer ao longo do século 21. A marcha para o Brasil que queremos depende do que fizermos hoje.
A transformação produtiva é um imperativo. Falar em políticas redistributivas sem modernizar o sistema produtivo e conectá-lo aos centros dinâmicos da economia mundial é propor distribuição sem crescimento, opção de fôlego curto, cujo preço sempre é pago pelos mais pobres. Há, portanto, que se fazer uma corajosa e lúcida transformação produtiva, dotando nossa economia de fundamentos sólidos o bastante para atrair investimentos produtivos externos e gerar, internamente, condições de cresci-mento que nos permitam quebrar o ciclo de reprodução da pobreza, por meio de investimentos em saúde, educação, saneamento, habitação, emprego e renda.
Nosso dilema é optar por uma transformação produtiva com eqüidade social e partir para a construção do país que queremos ou preservar o esquema de apartação e marchar para o país que tememos. Construir o país possível é uma tarefa econômica, política, social e, acima de tudo, uma tarefa ética. E a ética requerida é a da co-responsabilidade entre poder público, mundo empresarial e Tçrceiro Setor.
Do primeiro, espera-se a ampliação da cobertura e melhoria da qualidade das políticas públicas. Do mundo empresarial, espera-se um papel pró-ativo no enfrentamento das desigualdades sociais, aportando não só recursos financeiros, mas uma contribuição técnico-gerencial ao aumento da produtividade do gasto social, por meio de programas que permitam fazer mais e melhor com menos. Do Terceiro Setor, espera-se sensibilidade, espírito de luta e criatividade para produzir os conhecimentos e experiências necessárias à dinamização do investimento social, afastando-nos do assistencialismo e outras formas de manipulação da pobreza de grande parte do nosso povo.
Neste contexto, parcerias, alianças, organização em rede e outras formas de associativismo entre organizações dos três setores são um indicador do dinamis-mo de uma sociedade que se moderniza e complexifica no cumprimento de uma tarefa que a todos inclui e ultrapassa, que é viabilizar um país competitivo, justo e democrático.
O professor Eliseu Alves, especialista em economia agrícola, ao expor tendências muito duras para os pequenos produtores rurais, disse que em ciências sociais as más previsões são feitas não para serem cumpridas, mas para serem descumpridas, superadas pela competên-cia técnica e vontade política.
O cenário temido é um convite ao exercício da ética da co-responsabilidade, sem a qual a transformação produtiva continuará a ser um jargão sem significado concreto para um povo cuja paciência parece estar chegando ao fim. Contrariar previsões sociais é não aceitar passivamente o destino de exclusão social. Reverter tendências negativas é construir o país que queremos. E, para isso, é preciso o comprometimento de toda a sociedade.

Viviane Senna é presidente do Instituto
Ayrton Senna. E-mail: ias @ ias.org.br

Fonte: c358 Alshop Notícias - Junho • 2004

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