quarta-feira, setembro 15, 2004

VIOLÊNCIA É PERVERSAMENTE TRADUZIDA NA TV

ESTHER HAMBURGER
ESPECIAL PARA A FOLHA

No Japão, a TV não exibe as imagens dos atentados de 11 de Setembro. É incrível como aberrações que se tornaram corriqueiras, quase naturais, não o são do outro lado do planeta. Apesar da globalização, da uniformização tecnológica etc. e tal.
Se o choque dos aviões nas torres do World Trade Center, e o posterior megadesmoronamento que se seguiu, não aparecem na TV japonesa, o que dizer da recente tragédia envolvendo a escola cheia de crianças na Ossétia?
Ou das cerca de 40 explosões que marcaram o domingo, 12 de setembro, no Iraque? Com direito a imagens de um jornalista morto "em combate", quando reportava diretamente das ruas de Bagdá?
As imagens da tragédia nova-iorquina foram espetaculares. A ação foi concebida e reverberou como tal na mídia ocidental.
As imagens recentes da escola russa são de outro tipo. Elas revelam detalhes de corpos feridos, pessoas amarradas a bombas. Sem nenhum efeito especial, a crueza atingiu em Beslan os limites do tolerável.
O atentado tchetcheno celebrou, com alguns dias de antecedência, o aniversário do evento cujo significado para o império americano talvez possa ser comparado ao da queda do muro de Berlim para o império soviético.
O acirramento da violência nas mais diversas esferas da vida contemporânea -das relações pessoais às internacionais- se traduz de maneira perversa na telinha. Ao menos na metade ocidental do globo.
A ausência de imagens consideradas muito violentas na TV japonesa, além de curiosa, decorre de convenções culturais que protegem as pessoas do excesso de intimidades e de inconveniências. Revela mecanismos estratégicos da guerrilha contemporânea.
Explosões via satélite queimam imagens condenadas em diversas culturas, corroendo, por dentro, países de mídia livre.
Diante das imagens de Beslan, dá vontade de viajar para o Japão.

Esther Hamburger é antropóloga e professora da ECA-USP

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